DESENHOS SÃO PARA A GENTE FOLHEAR, SÃO PARA SEREM LIDOS QUE NEM POESIAS, SÃO HAICAIS, SÃO RUBAES, SÃO QUADRINHAS E SONETOS.
Mário de Andrade, "Do desenho"

21 de nov de 2009

Semana da Consciência Negra

Em comemoração ao dia da Consciência Negra, posto aqui, um texto sobre um dos maiores artistas do samba paulista.
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Geraldo Filme, sambista nascido em São João da Boa Vista em 1928 e que chegou na capital muito cedo, é um verdadeiro exemplo de resistência e afirmação enquanto negro. Desde menino teve contato com os cantos dos escravos que seu avô lhe apresentava, dançou nas rodas de tiririca (gênero da capoeira) e compôs, cantou e tocou nas rodas de Samba que aconteciam no Largo da Banana, Barra Funda.
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Foi compositor de grandes Sambas, mas seu nome está relacionado diretamente com o Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai (Escola de Samba situada no bairro do Bexiga). compôs para esta escola a maravilhosa: “Tradição (Vai no Bexiga pra ver)” (Quem nuca viu o samba amanhecer / Vai no bexiga pra ver / Vai no bexiga pra ver), música que foi gravada por Beth Carvalho.
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Para homenagear o grande diretor de Bateria Walter Gomes de Oliveira, mais conhecido como Pato N'água, que foi vítima do esquadrão da morte em 1969 e foi encontrado morto em uma lagoa na região de Suzano (Grande São Paulo), Geraldo compôs um outro hino, a maravilhosa “Silêncio no Bexiga” que até hoje enche de lágrimas os olhos dos frequentadores dos ensaios da Vai-Vai. (Silêncio o sambista está dormindo / Ele foi mas foi sorrindo / A notícia chegou quando anoiteceu / Escolas eu peço silêncio de um minuto / O Bexiga está de luto / O apito de Pato n'água emudeceu).
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RESISTÊNCIA E AFIRMAÇÃO DO POVO NEGRO.
Quero ser sambista / Ao renascer de novo / Pra cantar as alegrias / E desventuras de meu povo / Quero ter muitos amigos / Como tenho atualmente / Cantar samba na avenida / E nascer negro novamente.
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Um ícone da resistência e da afirmação enquanto negro, Geraldo compos também a bélissima “Vá cuidar da sua vida” onde exalta as contribuições do povo negro na formação da cultura brasileira e como a sociedade branca, baseada em príncipos europeus, tentou de todas as formas acabar com cultura afro-brasileira. Esta música também foi regravada por Itamar Assumpção em seu disco Pretobrás de 1998.
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Encerrando, deixo a letra da linda “Reencarnação” onde Geraldo mostra seu orgulho em ser negro e de ter vivido dentro do mundo do Samba, cantando e compondo as tristezas e alegrias de um paulistano:
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Pai, criador do universo
Quero lhe pedir perdão
Pelos erros cometidos
Espero não chamar seu nome em vão

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A gente aqui na Terra erra
Muitas vezes sem razão
Peço ao Criador
Quero voltar na reencarnação
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Sei que vou subir
Meu pensamento está na descida
Espero que o bom zambi me devolva
Tudo de bom que tenho nesta vida
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O som do surdo e o atabaque
Sentir meu corpo tremer
Tomar a bença a Mãe Rosa
Pedrinho a me proteger
E as crianças me chamando de Tio Gê
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Quero ser sambista
Ao renascer de novo
Pra cantar a alegria
E desventura de meu povo
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Quero ter muitos amigos
Como tenho atualmente
Cantar samba na avenida
E nascer negro novamente.
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Geraldo Filme faleceu em 1995.
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Discografia:
Geraldo Filme - 1980
O Canto dos Escravos (com Clementina de Jesus e Doca) - 1982

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